
A encefalopatia traumática crônica (CTE) é uma doença neurodegenerativa progressiva causada pela exposição repetida a traumatismos cranioencefálicos, mesmo que de baixa intensidade. Conhecida popularmente como “doença dos atletas”, a CTE afeta esportistas de contato como jogadores de futebol americano, boxeadores, lutadores e jogadores de hóquei, mas também pode ocorrer em militares expostos a explosões e em qualquer pessoa com histórico de traumas repetidos na cabeça. Neste artigo, a Dra. Carol Alvarez explica os sintomas, o diagnóstico e o que se sabe sobre o tratamento dessa condição neurológica.
O que é a Encefalopatia Traumática Crônica?
A CTE é uma tauopatia — ou seja, uma doença causada pelo acúmulo anormal da proteína tau no cérebro. Após traumas repetidos, a proteína tau se desdobra incorretamente e forma agregados tóxicos que se depositam progressivamente nos neurônios e nas células gliais, comprometendo regiões cerebrais ligadas ao humor, comportamento, cognição e controle motor.
Importante ressaltar: o diagnóstico definitivo de CTE ainda só pode ser feito post-mortem, por meio de análise histopatológica do tecido cerebral. Em vida, o diagnóstico é clínico e presuntivo, baseado no histórico de exposição a traumas e na presença de sintomas característicos. A pesquisa científica avança no desenvolvimento de biomarcadores para diagnóstico em vida, mas até o momento nenhum está disponível de forma rotineira.
Quem está em maior risco de desenvolver CTE?
Os grupos com maior risco de desenvolver encefalopatia traumática crônica incluem atletas de esportes de contato (futebol americano, boxe, luta livre, rugby, hóquei), militares expostos a ondas de choque de explosões, vítimas de violência doméstica com traumas cranianos repetidos e trabalhadores em atividades com alto risco de impacto na cabeça. A gravidade e a frequência dos traumas, a idade de início da exposição (inicio precoce na infância aumenta o risco) e fatores genéticos (como o alelo APOE4) influenciam o risco e a progressão da doença.
5 Principais Sintomas da Encefalopatia Traumática Crônica
Os sintomas da CTE geralmente surgem anos ou décadas após a exposição inicial aos traumas. A doença costuma ser dividida em estágios iniciais (predominantemente comportamentais e emocionais) e estágios avançados (com maior comprometimento cognitivo e motor).
1. Alterações de humor e comportamento
Nos estágios iniciais, a CTE frequentemente se manifesta com irritabilidade, explosões de raiva, impulsividade, comportamento agressivo e instabilidade emocional. Esses sintomas podem ser confundidos com transtornos psiquiátricos primários como transtorno bipolar ou transtorno de personalidade borderline.
2. Depressão e ansiedade
Depressão grave, ansiedade crônica, sentimentos de desesperança e ideação suicida são sintomas frequentes na CTE. Estudos post-mortem revelaram que atletas que morreram por suicídio frequentemente tinham evidências de CTE ao exame neuropatológico.
3. Comprometimento cognitivo e demência
Com a progressão da doença, surgem dificuldades de memória, atenção e concentração, declínio da função executiva (planejamento, tomada de decisão) e desorientação. Nos estágios avançados, a demência pode ser severa e incapacitante, lembrando a doença de Alzheimer.
4. Sintomas parkinsonianos
Tremores, lentidão dos movimentos (bradicinesia), rigidez muscular e instabilidade postural podem ocorrer em fases avançadas da CTE, especialmente em pacientes com histórico de boxe — condição antigamente conhecida como “demência pugilística” ou “punch drunk syndrome”.
5. Dificuldades de linguagem e fala
Disartria (fala arrastada ou incompreensível), dificuldades para encontrar palavras (anomia) e, em casos avançados, afasia podem fazer parte do quadro clínico da CTE.
Diagnóstico da Encefalopatia Traumática Crônica
Como o diagnóstico definitivo de CTE não pode ser feito em vida, o neurologista realiza uma avaliação clínica detalhada que inclui a história completa de exposição a traumas cranianos, avaliação neuropsicológica para documentar o perfil cognitivo, exames de neuroimagem (ressonância magnética e, quando disponível, PET com marcadores de tau) e avaliação psiquiátrica. A exclusão de outras causas de demência e transtornos comportamentais é uma etapa fundamental do processo diagnóstico.
Tratamento e Manejo da CTE
Atualmente, não existe tratamento específico capaz de interromper ou reverter a progressão da encefalopatia traumática crônica. O manejo é sintomático e voltado para melhorar a qualidade de vida do paciente. As estratégias incluem o tratamento farmacológico dos sintomas psiquiátricos (antidepressivos, estabilizadores de humor), o manejo dos sintomas cognitivos, a fisioterapia e reabilitação neurológica, o acompanhamento psicológico do paciente e de seus familiares, e a interrupção da exposição a novos traumas cranianos.
A pesquisa científica está avançando na busca por tratamentos que possam neutralizar os depósitos de proteína tau, mas até o momento nenhuma terapia modificadora da doença está disponível para uso clínico rotineiro.
Prevenção da Encefalopatia Traumática Crônica
A principal estratégia de prevenção é reduzir a exposição a traumas cranianos repetitivos. Isso inclui o uso correto de equipamentos de proteção em esportes de contato, a implementação de regras esportivas que limitem a exposição a impactos na cabeça, o afastamento imediato do atleta após uma concussão (protocolo return-to-play), a conscientização sobre os riscos de longo prazo dos impactos repetidos na cabeça e a criação de programas de monitoramento da saúde neurológica de atletas profissionais.
Para saber mais sobre doenças neurológicas relacionadas, leia também nossos artigos sobre doença de Alzheimer e ataxia cerebelar. A Associação Brasileira de Neurologia disponibiliza informações sobre neurologia clínica e distúrbios cerebrais para pacientes e familiares.
Se você ou um familiar apresenta histórico de traumas cranianos e sintomas como alterações de humor, comprometimento de memória ou dificuldades cognitivas, consulte um neurologista. A Dra. Carol Alvarez realiza avaliação neurológica especializada para diagnóstico e acompanhamento de condições relacionadas a traumas cranianos. Agende sua consulta.