
A afasia é a perda ou a alteração da capacidade de usar a linguagem causada por uma lesão nas áreas do cérebro responsáveis por falar, compreender, ler e escrever. Ela não afeta a inteligência: a pessoa continua sabendo o que quer dizer, mas perde o acesso às palavras ou à organização delas. Entender os tipos, as causas e as possibilidades de reabilitação ajuda pacientes e familiares a lidar melhor com esse quadro.
O que é afasia
Na maioria das pessoas, a linguagem é processada no hemisfério esquerdo do cérebro, em uma rede que envolve o lobo frontal, o lobo temporal e as fibras que os conectam. Quando essa rede sofre um dano, o quadro se instala.
É importante diferenciar esse quadro de dois problemas parecidos. A disartria é uma dificuldade de articular as palavras por fraqueza ou incoordenação dos músculos da fala, sem alteração da linguagem em si. Já a apraxia da fala é a dificuldade de planejar os movimentos necessários para falar. Uma mesma pessoa pode apresentar mais de uma dessas condições ao mesmo tempo.
6 tipos de afasia e como diferenciá-los
A classificação clássica considera três eixos: a fluência da fala, a compreensão e a capacidade de repetir frases. A partir deles, os principais tipos são:
- Afasia de Broca (não fluente): fala lenta, curta e com esforço, sem artigos e preposições, mas com compreensão relativamente preservada. A pessoa percebe o próprio erro e costuma se frustrar;
- Afasia de Wernicke (fluente): fala abundante e com ritmo normal, porém com palavras trocadas ou inventadas e pouco sentido, associada a grande dificuldade de compreensão. Muitos pacientes não percebem que estão sendo incompreensíveis;
- Condução: compreensão e fluência preservadas, com falha marcante na repetição de frases e trocas frequentes de sons;
- Global: comprometimento grave de todas as funções, com fala mínima e compreensão muito reduzida, geralmente após lesões extensas;
- Anômica: fala fluente e compreensão boa, com dificuldade principal em encontrar o nome das coisas, contornada por rodeios como “aquilo que serve para escrever”;
- Transcorticais: quadros em que a repetição permanece surpreendentemente preservada, mesmo com falha na expressão ou na compreensão.
Há ainda a forma progressiva primária, quadro degenerativo em que a linguagem se deteriora lentamente ao longo de anos, associada a doenças como a degeneração lobar frontotemporal.
Principais causas da afasia
O acidente vascular cerebral é, de longe, a causa mais frequente. Cerca de um terço das pessoas que sofrem um AVC apresenta algum grau de alteração da linguagem na fase aguda. Outras causas incluem:
- Traumatismo cranioencefálico;
- Tumores cerebrais que crescem nas áreas da linguagem;
- Infecções do sistema nervoso central, como encefalites;
- Doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer e a degeneração lobar frontotemporal;
- Crises epilépticas e estados pós-ictais transitórios;
- Enxaqueca com aura disfásica, em que a alteração é breve e reversível.
Sintomas da afasia no dia a dia
Os sinais variam conforme a área lesada e a extensão do dano. Os mais relatados por familiares são:
- Dificuldade para encontrar palavras conhecidas, com pausas longas no meio da frase;
- Troca de palavras por outras parecidas no som ou no significado, como dizer “cadeira” no lugar de “mesa”;
- Frases curtas, telegráficas ou, ao contrário, longas e sem sentido;
- Dificuldade para entender instruções simples ou acompanhar uma conversa em grupo;
- Perda da capacidade de ler e escrever, que quase sempre acompanha a alteração da fala;
- Dificuldade com números, horários e valores em dinheiro.
Quando esses sintomas aparecem de forma súbita, é preciso pensar imediatamente em AVC e buscar emergência. Tempo perdido é tecido cerebral perdido.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da afasia é clínico. O neurologista avalia fala espontânea, nomeação, repetição, compreensão de ordens, leitura e escrita, e a partir desse perfil identifica o tipo provável e a região cerebral envolvida.
Em seguida, exames de imagem como tomografia e ressonância magnética localizam a lesão. Testes formais aplicados por fonoaudiólogo quantificam a gravidade e servem de base para medir a evolução do tratamento. Nos quadros progressivos, podem ser necessários exames complementares para investigar doença neurodegenerativa.
Tratamento e reabilitação da afasia
O tratamento tem duas frentes. A primeira é cuidar da causa: prevenir novo AVC, tratar o tumor, controlar a infecção ou manejar a doença degenerativa. A segunda é a reabilitação da linguagem, conduzida por fonoaudiólogo.
A terapia fonoaudiológica é o pilar do tratamento e funciona melhor quando iniciada cedo e mantida com frequência adequada. Segundo o National Institute on Deafness and Other Communication Disorders, a maior parte da recuperação espontânea acontece nos primeiros meses, mas ganhos continuam a aparecer por anos com terapia consistente.
Recursos que costumam compor o plano incluem exercícios de nomeação e de compreensão, treino de estratégias compensatórias, comunicação alternativa com pranchas e aplicativos, terapia em grupo e orientação familiar. Depressão é comum e deve ser tratada, porque interfere diretamente no rendimento da reabilitação.
Como conversar com uma pessoa com afasia
- Fale devagar, com frases curtas, e faça uma pergunta de cada vez;
- Dê tempo para a resposta e evite completar as frases antes da hora;
- Reduza ruído de fundo, desligue a televisão e mantenha contato visual;
- Use gestos, papel, desenhos e fotos como apoio;
- Confirme se entendeu, repetindo o que compreendeu com outras palavras;
- Inclua a pessoa nas conversas e nas decisões, sem falar por ela.
Quando procurar um neurologista
Alteração súbita da fala ou da compreensão é emergência e exige pronto-socorro imediato. Já a dificuldade progressiva para encontrar palavras, que piora ao longo de meses, merece avaliação neurológica ambulatorial para investigar causas degenerativas e definir o plano de reabilitação.
Perguntas frequentes sobre afasia
A afasia tem cura?
Quando a causa é um AVC ou um trauma, a recuperação pode ser parcial ou até completa, especialmente em lesões pequenas e com reabilitação precoce. Nas formas degenerativas, o objetivo é preservar a comunicação pelo maior tempo possível.
Quem tem afasia perde a inteligência?
Não. A afasia compromete o acesso à linguagem, não o raciocínio, a memória de vida ou a personalidade. Tratar o paciente como se ele não compreendesse nada é um dos erros mais comuns e mais prejudiciais.
Quanto tempo dura a recuperação?
Os ganhos mais rápidos ocorrem nos primeiros três a seis meses, mas a neuroplasticidade permite melhora por anos. Frequência e continuidade da terapia influenciam mais o resultado do que o tempo decorrido desde a lesão.
Afasia e demência são a mesma coisa?
Não. A afasia é um sintoma que pode aparecer em várias doenças, inclusive nas demências. Na afasia progressiva primária, a linguagem é a função afetada primeiro, enquanto memória e comportamento permanecem preservados por bastante tempo.
Se você ou alguém da sua família apresenta dificuldade para falar, compreender, ler ou escrever, agende uma avaliação neurológica para identificar a causa e iniciar o plano de reabilitação adequado.